Houthis avançam em Bab el-Mandeb: o que mudou para o comércio e o petróleoA tomada de Mokha, Dhubab e Perim pelos Houthis ampliou a capacidade potencial de coerção sobre uma rota que ganhou importância como adaptação à crise de Ormuz. No fechamento desta apuração, porém, não estava demonstrado que Bab el-Mandeb tivesse deixado de funcionar

Geopolítica & Negócios

Análises conjunturais e estratégicas.

Ilustração editorial sobre o tema do avanços dos Houthis em Bab el-Mandeb, com navios de guerra em trânsito, representando uma rota aberta mas sob risco geopolítico maior.
O avanço houthi aumentou a capacidade potencial de coerção sobre o estreito de Bab el-Mandeb, mas a passagem não estava demonstradamente fechada no corte da apuração. (Foto: NZ Defence Force, 2011 / Crown Copyright)

Sumário

Governos e companhias de navegação não precisam esperar que um estreito seja formalmente fechado para mudar de comportamento. Essa distinção passou a ser especialmente importante no Estreito de Bab el-Mandeb nos dias 10 e 11 de setembro de 2026.

Os Houthis, movimento iemenita alinhado ao Irã, tomaram o porto de Mokha e avançaram em seguida sobre Dhubab e a ilha de Perim, também chamada Mayun, dentro da passagem que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho.

A ofensiva colocou o grupo em uma posição territorial muito mais forte sobre uma das rotas que alimentam o corredor marítimo do Mar Vermelho até o Canal de Suez. (apnews.com)

Isso não significa que o Bab el-Mandeb esteja fechado, mas sim que a “geografia do risco” mudou.

O que aconteceu no entorno do Bab el-Mandeb

Mokha caiu nas mãos dos houthis em 10 de setembro. No dia seguinte, fontes do governo iemenita disseram à Reuters que suas forças haviam deixado Perim e que os houthis também tinham tomado Dhubab, cidade costeira diretamente voltada para a ilha. A mesma reportagem informou perdas nas ilhas Hanish durante o avanço pela costa do Mar Vermelho. (reuters.com)

Perim possui importância particular porque fica dentro do Bab el-Mandeb, dividindo a passagem em dois canais.

Sua captura não transfere automaticamente aos Houthis o controle operacional absoluto de todo navio que entra ou sai do Mar Vermelho, mas aproxima forças, sensores e armamentos de um corredor que já vinha operando sob risco elevado.

A diferença é mais importante do que parece.

Controlar um território próximo a uma rota marítima aumenta a capacidade de observar, ameaçar ou atingir embarcações.

Já controlar completamente o funcionamento econômico do estreito exigiria algo diferente: capacidade de impedir ou tornar inviável de maneira sustentada a navegação através da passagem. Até o fechamento desta apuração, essa segunda situação não estava demonstrada.

Bab el-Mandeb continua aberto, mas isso não encerra o problema

Os últimos dados de tracking publicados pela Reuters mostraram 26 embarcações comerciais atravessando Bab el-Mandeb em 10 de setembro, praticamente em linha com a média de 27 nos dez dias anteriores. Portanto, não havia naquele momento evidência de paralisação geral do corredor. (reuters.com)

Ao mesmo tempo, essa fotografia é altamente perecível. Parte da captura territorial ocorreu depois do período medido, e decisões de armadores podem mudar mais rápido do que estatísticas agregadas conseguem mostrar.

Os próprios Houthis tentaram delimitar o alcance de sua ameaça. O porta-voz militar Yahya Saree declarou que a navegação estaria segura para todas as companhias, exceto navios sauditas atingidos pelo bloqueio que o grupo havia anunciado anteriormente. (reuters.com)

Uma companhia marítima, porém, não avalia apenas a declaração de quem possui capacidade para atacá-la.

Ela avalia histórico de incidentes, origem e destino da carga, vínculos comerciais do navio, cobertura de seguro, capacidade de escolta, risco de erro de identificação e possibilidade de expansão do conflito.

Por isso, a passagem pode continuar fisicamente navegável enquanto se torna economicamente menos atraente.

O problema agora é maior porque Bab el-Mandeb virou parte da solução para Ormuz

O avanço de setembro ocorre em um Bab el-Mandeb mais importante para o sistema energético do que era antes da guerra regional de 2026.

A crise no Estreito de Hormuz obrigou a Arábia Saudita a utilizar intensamente o oleoduto Leste-Oeste, que cruza o país até Yanbu, no Mar Vermelho. A partir dali, petroleiros poderiam seguir ao sul por Bab el-Mandeb em direção aos mercados asiáticos ou ao norte em direção ao Suez e ao Mediterrâneo.

A EIA estimou que os fluxos de petróleo e outros líquidos por Bab el-Mandeb subiram de 5,4 milhões de barris diários no quarto trimestre de 2025 para 8,1 milhões no segundo trimestre de 2026. No mesmo período, Ormuz caiu de 21,6 milhões para 4,9 milhões de barris diários. (eia.gov)

Essa mudança transformou Bab el-Mandeb em parte da adaptação a outro chokepoint. Agora tal adaptação também está sob pressão.

A situação ficou ainda mais complexa quando a Arábia Saudita fechou temporariamente o oleoduto Leste-Oeste depois de ataques de drones que autoridades sauditas e iraquianas disseram ter partido do Iraque. A infraestrutura vinha transportando entre 4 milhões e 5 milhões de barris por dia nos últimos meses. (reuters.com)

São acontecimentos relacionados pela rede logística, mas não devem ser fundidos causalmente: o ataque ao oleoduto não foi atribuído aos houthis.

Suez pode recuperar tráfego enquanto Bab el-Mandeb continua mais arriscado

O comportamento recente da navegação também mostra por que Suez e Bab el-Mandeb não são o mesmo problema.

Dados da Lloyd’s List Intelligence apontavam recuperação importante do Canal de Suez em julho e agosto, com 1.232 trânsitos em agosto e forte presença de petroleiros redirecionados pela crise de Ormuz. Ao mesmo tempo, a recuperação no Bab el-Mandeb vinha perdendo força diante das novas ameaças Houthis. (lloydslist.com)

Isso é possível porque um petroleiro carregado em Yanbu pode seguir para o norte, atravessar Suez e o Mediterrâneo, e depois contornar a África para atender um comprador asiático sem passar pelo Bab el-Mandeb.

É uma solução? Sim. Mas é uma solução cara.

A AP, com dados da Kpler, estima que uma viagem desse tipo até a Coreia do Sul pode aumentar de aproximadamente 24 para 54 dias. Alguns grandes navios também precisam descarregar petróleo no Egito para utilização do sistema SUMED antes de continuar pelo Mediterrâneo. (apnews.com)

As alternativas de contorno existem, mas utilizam mais tempo, mais ativos e mais capital.

O efeito econômico já começou, mas Bab el-Mandeb não explica tudo

O petróleo encerrou 11 de setembro ainda acima de US$ 100 por barril. O Brent fechou a US$ 104,61 e o WTI a US$ 100,05, com alta semanal superior a 8%. (reuters.com)

Mas seria incorreto atribuir esse movimento apenas à tomada de Perim ou ao avanço sobre Mokha.

O mercado vinha reagindo simultaneamente à crise em Hormuz, ataques contra navios, restrições na produção e exportação do Golfo, ataques contra infraestrutura saudita e ao risco crescente no Mar Vermelho.

Bab el-Mandeb passou a ser um fator adicional dentro de um sistema energético que já estava tensionado.

Na navegação, ocorre algo semelhante. Seguros para viagens vinculadas à Arábia Saudita já vinham sendo oferecidos sob condições mais restritivas e a custos maiores antes da ofensiva territorial desta semana.

Ainda não há, no fechamento desta apuração, uma série suficientemente limpa para isolar um novo salto de prêmio provocado especificamente pela captura de Perim. (lloydslist.com)

O risco econômico atual está, portanto, menos em um bloqueio comprovado e mais na possibilidade de que armadores, seguradoras e compradores passem a exigir mais preço para aceitar a rota.

Por que isso pode chegar a empresas brasileiras

Uma empresa brasileira não precisa ter uma carga atravessando Bab el-Mandeb para estar exposta à crise.

Se mais navios precisam viajar por rotas longas, cada embarcação fica ocupada por mais tempo. Isso reduz capacidade efetiva da frota disponível e pode reprecificar fretes em outros corredores.

Se seguradoras ampliam prêmios de guerra, o efeito aparece no custo da viagem.

Se petróleo e derivados permanecem caros, bunker, transporte e outras cadeias energéticas também podem reagir.

Se a rota entre Ásia e Europa perde previsibilidade, componentes, bens intermediários e estoques mantidos em outras regiões podem enfrentar prazos maiores.

A Comexchange já analisou esse mecanismo em termos gerais no seu artigo sobre chokepoints marítimos e mostrou uma transmissão específica de custos dessa crise na região ao Brasil, no caso da ureia transportada pelo Estreito de Ormuz.

O episódio atual acrescenta uma nova camada: uma rota que ganhou importância para contornar Ormuz tornou-se simultaneamente mais arriscada.

Aliás, este último é o dado geoeconômico mais relevante dos últimos dias: Bab el-Mandeb não precisou fechar para que a margem de adaptação do sistema diminuísse.

O que monitorar agora

Antes de qualquer conclusão sobre bloqueio ou normalização, cinco sinais são especialmente importantes: novos ataques a embarcações, comportamento efetivo dos navios não sauditas, tráfego diário em Bab el-Mandeb, evolução da contraofensiva anunciada pelas forças do governo iemenita e qualquer mudança da posição Houthi sobre quais navios considera alvos.

Do lado energético, também é necessário acompanhar a recuperação ou não do oleoduto Leste-Oeste, os embarques em Yanbu, a utilização de Suez e SUMED e a evolução de Hormuz. O risco atual deriva justamente da interação entre essas rotas.

No fechamento desta apuração, o Bab el-Mandeb estava mais exposto a coerção e ataque do que poucos dias antes. mas não estava demonstrado que tivesse deixado de funcionar.

Essa diferença precisa permanecer no centro da cobertura.

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