Terras raras no Brasil: o que precisa existir entre a reserva e uma cadeia estratégicaCom dados até 1º de julho de 2026, o Brasil combina reservas de escala mundial e projetos em avanço, mas transformar geologia em posição estratégica exige produção, processamento competitivo, tecnologia, capital, contratos e mercados

Geopolítica & Negócios

Análises conjunturais e estratégicas.

Ilustração editorial de uma operação brasileira de terras raras conectada a uma cadeia industrial ainda incompleta, com mineração no primeiro plano e etapas mais avançadas de processamento e manufatura ao fundo.
Reservas abrem a possibilidade; produção, processamento competitivo, tecnologia, contratos e mercados determinam quanto valor estratégico o país consegue transformar em capacidade econômica.

Sumário

O debate sobre terras raras no Brasil chegou a 2026 diante de um contraste difícil de ignorar.

Segundo o Mineral Commodity Summaries 2026, do USGS, as reservas de terras raras no Brasil eram estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras equivalentes, a segunda maior quantidade registrada na publicação, atrás dos 44 milhões da China.

No entanto, a produção mineral brasileira estimada para 2025 foi de apenas 2 mil toneladas, diante de 270 mil toneladas chinesas e de aproximadamente 390 mil toneladas produzidas no mundo.

Em outras palavras, o Brasil possuía quase metade das reservas atribuídas à China, mas a produção chinesa ainda era cerca de 135 vezes maior. (Publicações USGS)

A discrepância já seria suficiente para desaconselhar qualquer associação automática entre geologia e poder. Ainda assim, ela mostra apenas a primeira parte do problema.

A concentração aumenta depois que o minério sai do solo

No recorte mais diretamente relacionado às terras raras utilizadas em ímãs permanentes, a Agência Internacional de Energia estimou que, em 2024, a China concentrava cerca de 60% da produção mineral, 91% da produção refinada e 94% dos ímãs permanentes sinterizados.

Os universos estatísticos da IEA e do USGS não são idênticos, portanto esses percentuais não devem ser combinados como se medissem exatamente o mesmo conjunto de elementos.

A progressão da concentração, porém, revela algo mais importante: a posição chinesa se torna ainda mais forte depois que o minério sai do solo. (IEA)

É justamente nesse espaço entre o depósito geológico e o produto industrial que se encontra a pergunta brasileira.

As terras raras colocam o país diante de uma oportunidade geoeconômica real no momento em que Estados Unidos, União Europeia e outras economias procuram reduzir vulnerabilidades em cadeias altamente concentradas.

O que a pesquisa não sustenta é a conclusão mais confortável: que grandes reservas bastariam para converter o Brasil em alternativa estratégica à China.

O recurso natural abre uma possibilidade. A cadeia determina o poder que poderá ser extraído dela.

Antes da potência mineral, é preciso saber o que significa uma reserva

Parte da confusão começa nas próprias palavras utilizadas para descrever o potencial brasileiro.

O USGS define recurso mineral como uma concentração natural cuja extração é atualmente ou potencialmente viável.

Reserva é uma categoria mais restrita: corresponde à parcela que pode ser economicamente extraída nas condições consideradas no momento da avaliação.

Reservas, portanto, não constituem uma quantidade geológica imutável. Podem crescer com novas descobertas, tecnologia, preços e desenvolvimento de depósitos, ou diminuir quando as condições econômicas se alteram. (Publicações USGS)

Essa distinção é especialmente importante em um mercado no qual empresas anunciam recursos minerais de centenas de milhões ou mesmo bilhões de toneladas de material hospedeiro, enquanto estatísticas nacionais de reservas costumam ser apresentadas em toneladas equivalentes de óxidos de terras raras.

Os números podem estar tecnicamente corretos e ainda assim não serem diretamente comparáveis.

Terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos não são sinônimos

Também não são sinônimos terras raras, minerais críticos e minerais estratégicos. Terras raras constituem um grupo específico de 17 elementos.

Já criticidade e caráter estratégico são classificações de política econômica e segurança que variam conforme o país, a estrutura industrial e os riscos de abastecimento.

A própria Agência Nacional de Mineração esclarecia, em abril de 2026, que o Brasil possuía uma lista oficial de minerais estratégicos vinculada à Política Pró-Minerais Estratégicos, mas ainda não uma lista nacional única de “minerais críticos e estratégicos” equivalente às classificações adotadas por outras economias. (Serviços e Informações do Brasil)

O cuidado terminológico não é acessório. Ele impede que uma informação sobre terras raras seja automaticamente transferida ao lítio, ao cobre, à grafita ou ao níquel, cujas cadeias, mercados e concentrações produtivas são diferentes.

Neste artigo, portanto, as terras raras funcionam como caso principal dentro da discussão mais ampla sobre minerais críticos.

E o caso é revelador porque expõe, com especial nitidez, a diferença entre possuir o recurso e controlar os mecanismos econômicos que o transformam em produto estratégico.

A dependência que o G7 e a União Europeia procuram reduzir não termina na mina

A agenda internacional de minerais críticos havia avançado muito além de uma corrida por jazidas até meados de 2026.

Em 17 de junho, os líderes do G7 reunidos em Évian voltaram a tratar a alta concentração das cadeias minerais como vulnerabilidade econômica e de segurança.

A declaração adotada no encontro propôs reduzir dependências críticas, diversificar cadeias, mobilizar capital público e privado, ampliar capacidades industriais e utilizar instrumentos como participações societárias, garantias e contratos de offtake.

O grupo também criou uma aliança de resiliência e produção para minerais críticos. (elysee.fr)

A União Europeia já havia transformado essa preocupação em política interna. O Critical Raw Materials Act estabeleceu como referências para 2030 capacidade doméstica equivalente a pelo menos 10% do consumo europeu na extração, 40% no processamento e 25% na reciclagem, além da meta de evitar que mais de 65% do consumo de um material estratégico em estágio relevante da cadeia venha de um único terceiro país. (European Commission)

O processamento importa tanto quanto a extração

A diferença entre 10% para extração e 40% para processamento é particularmente instrutiva.

Ela mostra que a vulnerabilidade europeia não foi diagnosticada apenas como insuficiência de minas. O problema inclui aquilo que acontece depois da extração.

No caso das terras raras para ímãs permanentes, a própria distribuição mundial explica por quê.

Se a China concentrava uma parcela já dominante da mineração, sua presença era ainda maior no refino e na fabricação dos ímãs. A dependência ocidental, portanto, não se resolve apenas descobrindo outra jazida. (IEA)

Essa constatação muda também o significado do interesse internacional pelo Brasil.

Diversificar em relação à China pode aumentar a importância de reservas e projetos brasileiros.

Não implica, entretanto, que cada tonelada retirada do subsolo brasileiro constitua uma tonelada de capacidade chinesa substituída.

O Brasil já começou a produzir terras raras, mas seus projetos estão em etapas muito diferentes

A posição brasileira também não pode ser reduzida à imagem de um país que possui reservas e nenhuma atividade concreta.

A Serra Verde iniciou produção comercial no projeto Pela Ema, em Minaçu, Goiás, no começo de 2024. A operação produz carbonato misto de terras raras, um produto intermediário, e vinha ampliando capacidade.

Em abril de 2026, a companhia anunciou plano para alcançar aproximadamente 6,4 mil toneladas anuais de óxidos totais equivalentes até o fim de 2027. (Serra Verde Group)

O estágio alcançado pela Serra Verde é material porque já ultrapassou a fronteira que separa recurso mineral, projeto e produção comercial.

Ao mesmo tempo, sua própria estrutura mostra onde a cadeia brasileira ainda terminava. Documentação da U.S. International Development Finance Corporation descreve o produto principal como carbonato misto destinado a compradores do midstream, que depois realizam o refino dos elementos individuais. (DFC)

Produção comercial, estudos e plantas-piloto são estágios diferentes

Outros projetos estavam avançando em diferentes posições desse percurso.

Em abril de 2026, a Aclara apresentou estudo de viabilidade para o projeto Carina, em Goiás, baseado em reservas minerais e com produção média projetada de 4.378 toneladas anuais de óxidos de terras raras durante a vida útil considerada pelo estudo. Tratava-se de projeção de projeto, não de capacidade industrial já disponível. (Moomoo News)

A Meteoric, por sua vez, informava no primeiro trimestre de 2026 que o projeto Caldeira, em Minas Gerais, possuía estudo de pré-viabilidade concluído, planta-piloto em funcionamento e estudo de viabilidade definitivo ainda em desenvolvimento.

Financiamento, acordos comerciais e decisão final de investimento continuavam pertencendo às etapas seguintes. (ASX Announcements)

A Viridis avançava no projeto Colossus, também em Minas Gerais, com centro de pesquisa e processamento, planta de demonstração e discussões comerciais com compradores europeus e norte-americanos.

Em junho, a visita do comissário europeu Jozef Síkela ao empreendimento foi incorporada à missão oficial da União Europeia no Brasil. (Reuters)

Há, portanto, uma diferença qualitativa entre dizer que o Brasil possui “projetos de terras raras” e perguntar quais deles já produzem, quais possuem reservas economicamente demonstradas, quais concluíram estudos de engenharia, quais obtiveram licenças, quais conseguiram financiamento e quais dispõem de compradores contratados.

Somente a segunda pergunta começa a descrever uma cadeia.

O gargalo mais importante aparece depois do carbonato misto

A produção de um concentrado ou de um carbonato misto representa avanço industrial em relação à mera extração de material mineral.

Ainda assim, não encerra o processo.

As cadeias das terras raras utilizadas em ímãs passam por etapas de beneficiamento, processamento químico, separação dos elementos, produção de óxidos individualizados, metalização, ligas e, finalmente, fabricação de componentes como ímãs permanentes.

Não é necessário dominar tecnicamente cada processo para compreender a consequência econômica: quanto mais a cadeia avança, mais a competitividade passa a depender de conhecimento, escala industrial, especificação do produto, tecnologia e integração com os consumidores finais. (IEA)

Esse era precisamente um dos gargalos reconhecidos no Brasil.

Um estudo concluído em junho de 2026 para subsidiar a futura Estratégia Nacional de Terras Raras identificou uma base upstream em expansão, com projetos como Pela Ema, Caldeira, Colossus e Carina, mas uma capacidade ainda baixa nos segmentos intermediários e finais.

O diagnóstico apontava como desafio a transformação de competências científicas e laboratoriais em plantas de demonstração e ativos industriais, especialmente em separação, refino, metalização e reciclagem. (Serviços e Informações do Brasil)

O processamento de terras raras no Brasil ainda precisa ganhar escala

O país não partia do zero.

O projeto MagBras, iniciado em 2025, reunia empresas e instituições de ciência e tecnologia para desenvolver um demonstrador do ciclo de produção de ímãs permanentes.

Dentro dele, o CETEM trabalha em rotas nacionais de extração, separação e refino de elementos como neodímio, praseodímio, térbio e disprósio.

A palavra decisiva, entretanto, é demonstrador. Competência tecnológica e capacidade industrial comercial continuam sendo categorias diferentes. (Serviços e Informações do Brasil)

Em junho de 2026, pesquisadores do IPEN descreviam a mesma fronteira: para estruturar uma cadeia nacional, ainda seria necessário avançar na construção de unidades de separação e refino e, posteriormente, na fabricação de ímãs de alto desempenho. (Serviços e Informações do Brasil)

O paradoxo brasileiro começava, então, a tomar forma.

A geologia deixava de ser o único problema justamente quando passava a ser a principal razão para o interesse internacional.

Capital e contratos podem transformar um depósito em projeto

Entre a reserva e a produção existe outro componente que muitas narrativas geopolíticas tratam como detalhe: dinheiro.

Uma jazida não se transforma em mina porque a geopolítica decidiu que determinado mineral se tornou crítico.

Projetos precisam financiar estudos, licenciamento, engenharia, infraestrutura, construção, expansão e capital de giro. Também precisam encontrar compradores dispostos a assumir volumes futuros em condições que tornem previsíveis receitas suficientes para sustentar o investimento.

O caso da Serra Verde mostra como esses mecanismos podem funcionar juntos.

Em dezembro de 2025, o conselho da DFC norte-americana aprovou financiamento de até US$ 565 milhões relacionado à operação de Pela Ema.

Em abril de 2026, a Serra Verde anunciou também um contrato de offtake de 15 anos, com aquisição prevista de 100% da produção da primeira fase por uma estrutura capitalizada por agências governamentais dos Estados Unidos e fontes privadas, incluindo pisos de preços para terras raras magnéticas. (DFC)

Para o projeto, a lógica econômica é evidente. Financiamento reduz restrição de capital; contrato de longo prazo reduz incerteza de demanda; um piso de preço pode diminuir exposição ao risco de mercado.

Financiar a mina não define onde o valor ficará

Para o país hospedeiro, porém, surge uma pergunta adicional: em qual ponto da cadeia essa previsibilidade está sendo criada?

Se o financiamento viabiliza produção no Brasil, mas o material segue para separação, metalização e manufatura no exterior, parte importante da cadeia estratégica continua situada fora do território brasileiro.

Isso não torna o acordo ruim.

Mostra apenas que investimento estrangeiro, industrialização e captura de valor não são conceitos equivalentes.

Um contrato pode resolver o risco financeiro de uma mina e simultaneamente integrar essa mina de forma profunda à cadeia industrial de outro país.

A União Europeia também falava em cadeia, não apenas em fornecimento mineral

Esse dilema já aparecia nas conversas entre Brasil e União Europeia em junho de 2026.

Durante missão ao país, a Comissão Europeia apresentou minerais críticos como uma das áreas prioritárias da estratégia Global Gateway.

Ao encerrar a visita, em 26 de junho, o comissário Jozef Síkela declarou que o objetivo europeu era construir cadeias sustentáveis, criar oportunidades industriais no Brasil e na Europa e transformar a relação bilateral em projetos concretos. (International Partnerships)

Três dias antes, o Ministério de Minas e Energia havia registrado que as conversas com a delegação europeia incluíam desenvolvimento de cadeias de valor sustentáveis, além de energia, infraestrutura e descarbonização industrial. (Serviços e Informações do Brasil)

Em entrevista durante a missão, Síkela afirmou ainda que a União Europeia trabalhava na negociação de um memorando com o Brasil e defendia processamento e agregação de valor no próprio país.

Até a data de corte deste artigo, essa negociação deveria ser tratada como intenção política e diplomática, não como capacidade industrial já contratada. (CNN Brasil)

A distinção é importante porque o interesse externo pode assumir desenhos muito diferentes.

Um parceiro pode querer apenas garantir uma fonte adicional de matéria-prima. Pode financiar uma mina, contratar produção futura, financiar processamento no país de origem, compartilhar tecnologia e integrar o projeto a uma cadeia industrial externa.

Pode ainda combinar algumas dessas possibilidades e não outras.

Falar genericamente em “investimento estrangeiro em minerais críticos” esconde justamente aquilo que determina onde valor, conhecimento e poder de negociação permanecerão.

Verticalizar tudo também seria uma simplificação

Se exportar apenas material intermediário não garante posição estratégica, a resposta automática poderia parecer evidente: internalizar todos os elos.

A pesquisa não permite concluir isso.

A fabricação de cada produto exige escala mínima, investimento, tecnologia, energia, reagentes, conhecimento operacional, mão de obra, padrões de qualidade e, sobretudo, mercado. Construir uma etapa industrial dentro do país não demonstra que essa etapa será competitiva.

O estudo preparado para subsidiar a Estratégia Nacional de Terras Raras reconhecia explicitamente essa questão.

Ao avaliar a possibilidade de separação de óxidos no Brasil, identificava vantagens potenciais em proximidade do feedstock e energia, mas tratava competitividade como hipótese a ser demonstrada.

No caso da energia, por exemplo, o ganho dependeria de contratação efetiva em condições competitivas e de longo prazo, não apenas da existência abstrata de uma matriz elétrica relativamente renovável. (Serviços e Informações do Brasil)

Agregar valor não significa internalizar todos os elos

Essa é talvez a parte mais difícil da discussão brasileira.

Agregar valor não exige necessariamente reproduzir integralmente dentro do território nacional uma cadeia que levou décadas para adquirir escala em outros países.

Pode significar escolher os elos nos quais o Brasil possui combinação defensável de matéria-prima, custo, energia, mercado, tecnologia e capacidade de aprendizado.

Em alguns casos, a escolha economicamente racional pode ser avançar da mineração para separação.

Dependendo da estrutura de custos, tecnologia e mercado, também pode fazer sentido acrescentar refino, metalização ou integração com determinados fabricantes.

Há ainda situações em que um projeto exportador conectado por contratos a uma cadeia estrangeira pode gerar retorno superior ao de uma verticalização industrial artificialmente construída.

A questão estratégica não é maximizar o número de etapas realizadas dentro das fronteiras nacionais.

É descobrir em quais etapas o Brasil consegue construir capacidade difícil de substituir e economicamente sustentável.

A política brasileira ainda estava sendo construída

Até 1º de julho de 2026, o Brasil possuía diversas iniciativas ligadas a minerais críticos e terras raras, mas o próprio governo ainda tratava a estratégia específica para terras raras como processo em construção.

Em janeiro, o Ministério de Minas e Energia iniciou formalmente os estudos destinados a subsidiar a Estratégia Nacional de Terras Raras.

O objetivo declarado era construir diretrizes, metas e instrumentos articulados a políticas industriais, ambientais, tecnológicas e de transição energética. (Serviços e Informações do Brasil)

O estudo final de apoio à estratégia estava datado de 9 de junho e foi apresentado em Brasília no dia 19.

Seu conteúdo oferecia diagnóstico e recomendações, mas sua própria natureza era subsidiar a formulação da estratégia, não comprovar que todos aqueles instrumentos já estivessem implementados. (Serviços e Informações do Brasil)

Do diagnóstico à capacidade, a política precisa atravessar a execução

Paralelamente, BNDES e Finep já haviam iniciado uma tentativa concreta de reduzir o hiato entre mineração e indústria.

Em 2025, a chamada conjunta para transformação de minerais estratégicos selecionou 56 planos de negócios que somavam R$ 45,8 bilhões em investimentos pretendidos.

O desenho da iniciativa incluía capacidade produtiva, pesquisa e desenvolvimento, materiais transformados e produtos manufaturados, inclusive terras raras. (Agência de Notícias BNDES)

Havia também discussão legislativa sobre uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Em maio de 2026, a Câmara aprovou a proposta, que seguiu para o Senado e permanecia sujeita ao processo legislativo.

O texto aprovado previa, entre outros mecanismos, incentivos a projetos de beneficiamento e transformação realizados no país e a criação de um fundo garantidor para atividades vinculadas aos minerais críticos e estratégicos. (Câmara dos Deputados)

O quadro institucional, portanto, era mais complexo do que dois diagnósticos opostos sugeririam.

Não era correto afirmar que o Brasil não possuía política alguma.

Também não era correto tratar intenções, estudos, editais, projetos-piloto e propostas legislativas como se já constituíssem uma cadeia nacional consolidada.

A oportunidade brasileira depende de transformar geologia em opções

O interesse do G7, da União Europeia e dos Estados Unidos mostra que a geologia brasileira ganhou importância em uma reconfiguração internacional de cadeias produtivas.

Mas essa reconfiguração não está reservada ao Brasil.

Em 2025, os Estados Unidos produziram aproximadamente 51 mil toneladas de terras raras em equivalente de óxidos e a Austrália, 29 mil, contra cerca de 2 mil no Brasil.

Projetos de mineração, processamento e ímãs também avançavam em diferentes países apoiados por política industrial, financiamento público e contratos de longo prazo. (Publicações USGS)

A diversificação em relação à China não significa substituí-la por um único novo fornecedor. Seu objetivo é justamente reduzir o risco de uma nova concentração.

O Brasil entra nessa disputa porque combina grande base mineral, projetos relevantes e relação econômica com várias das potências interessadas em diversificar suas cadeias.

Pode ainda possuir vantagens condicionais em energia, experiência mineradora e disponibilidade de depósitos com composições particularmente interessantes para determinados elementos.

Nada disso assegura liderança. As reservas criam opcionalidade geológica. Projetos transformam parte dessa opcionalidade em oferta potencial.

Financiamento transforma projeto em possibilidade de investimento. Contratos reduzem risco comercial. Processamento transforma mistura mineral em produtos mais específicos.

Tecnologia, escala e indústria consumidora determinam se essas capacidades conseguem sobreviver economicamente.

É essa sequência, e não apenas o número de toneladas no subsolo, que transforma recurso natural em posição geoeconômica.

Para as empresas, o teste está nos ativos que efetivamente aparecem

A narrativa geopolítica pode mudar muito mais rápido do que uma cadeia mineral.

Por isso, empresários, gestores financeiros e profissionais de comércio exterior interessados no tema precisam observar indicadores mais concretos do que declarações diplomáticas ou anúncios de reservas.

O primeiro é produção comercial. Um depósito gigantesco ainda em pesquisa pertence a uma categoria econômica diferente de uma operação capaz de entregar produto regularmente.

Depois vem a capacidade instalada. Não basta anunciar intenção de processamento; importa saber qual planta foi construída, qual produto consegue fabricar, qual escala foi demonstrada e se há qualidade compatível com o mercado consumidor.

Do anúncio à capacidade, os sinais precisam ser concretos

Financiamento é outra variável decisiva. Projetos que alcançam crédito, capital próprio, garantias públicas ou investimento estratégico já cruzaram barreiras que muitos anúncios não cruzarão.

Contratos de offtake também merecem atenção porque revelam que existe demanda disposta a assumir compromisso de longo prazo.

Ao mesmo tempo, seu desenho ajuda a identificar para qual cadeia o projeto está sendo integrado e quanto poder de negociação permanece aberto.

Licenciamento, infraestrutura e energia podem definir cronogramas e custos. Em seguida aparecem tecnologia, mão de obra, reagentes, logística e integração com compradores industriais.

Por fim, é necessário observar quem está investindo no elo posterior.

Uma mina brasileira conectada a uma planta de separação estrangeira cria uma configuração. Uma planta brasileira capaz de fornecer óxidos separados a vários compradores cria outra.

Uma cadeia com produção de materiais e componentes adiciona ainda mais possibilidades, desde que consiga competir. Não existe uma única forma correta.

Existe um critério: quanto mais opções economicamente viáveis uma cadeia oferece ao país, menor a probabilidade de que sua relevância geológica se converta apenas em dependência comercial de quem domina as etapas seguintes.

O Brasil tem uma oportunidade estratégica. Ainda precisa construir a posição estratégica

As terras raras ajudam a perceber uma diferença que frequentemente desaparece quando geopolítica e recursos naturais são colocados na mesma frase.

O subsolo oferece potencial. Poder econômico exige capacidade.

Em 2026, o Brasil já não podia ser descrito apenas como proprietário passivo de uma enorme reserva. Pela Ema estava produzindo.

Outros projetos haviam alcançado estudos de viabilidade, plantas-piloto, licenciamento e negociações comerciais. Capital público e privado começava a entrar.

Estados Unidos e União Europeia buscavam parcerias. O próprio governo brasileiro estudava uma estratégia para organizar a cadeia.

Ao mesmo tempo, a distância em relação à estrutura chinesa continuava enorme.

A China não construiu sua posição apenas acumulando reservas ou extraindo minério.

A concentração cresceu nos elos em que matéria mineral se transforma em óxido separado, metal, liga, ímã e componente industrial.

É ali que escala, conhecimento, mercado e capacidade de substituição se transformam em poder de negociação.

O Brasil não precisa reproduzir toda essa arquitetura para capturar valor de suas terras raras.

Também não deveria concluir antecipadamente que qualquer etapa industrial adicional será economicamente justificável.

A oportunidade mais sofisticada está entre esses extremos: identificar quais elos podem ser construídos de forma competitiva no país, conectá-los a capital, tecnologia e mercados e evitar que a estratégia se encerre no momento em que o produto mineral deixa o território brasileiro.

Uma potência mineral não nasce da quantidade de minério enterrada. Mas tampouco nasce da quantidade de fábricas que um governo decide desejar.

Ela começa a existir quando recursos, capacidade industrial, contratos, tecnologia e mercados passam a funcionar como um sistema.

Em 1º de julho de 2026, o Brasil já possuía o primeiro elemento dessa equação em escala mundial.

A questão geoeconômica era quantos dos seguintes conseguiria construir.

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